A pintura de um homem com terno, gravata vermelha e um chapéu-coco – totalmente fora do contexto da paisagem – com uma maçã verde a frente da face e uma das obras mais celebradas de Rene Magritte. A figura, em posição estática, encontra-se com o horizonte ao fundo (e de costas para ele), tendo um céu nublado o coroando e um pequeno muro as suas costas. A imagem é tão icônica que foi absorvida pela cultura pop e hoje em dia e massivamente reproduzida. Inicialmente a pintura seria um autorretrato de Magritte (encomendado pelo seu próprio mecenas), mas logo o pintor quis transformar o trabalho em outra coisa, possivelmente numa discussão mais conceitual entre o visível, o oculto e a curiosidade humana.
Os homens representados como gotas de chuva intrigam o observador. Praticamente idênticos, não é possível perceber bem se eles flanaram do chão ou se despenderam do céu. Apesar de terem feições semelhantes, ao se observar de perto vemos como os homens são distintos entre si, induzindo o espectador a participar de um jogo de observação de semelhanças e diferenças. Todos os homens usam sobretudos negros e chapéus-coco, o pano de fundo é um prédio vulgar do subúrbio, também com janelas iguais, e um céu azul na parte superior da tela. A tela levanta questionamentos sobre a individualidade e sobre a identidade de grupo: até que ponto os sujeitos são autônomos ou se comportam conforme de acordo com a massa?
A obra de Rene Magritte emerge dominantemente do surrealismo. Mais do que um artista, ele declarou-se e pode ser considerado um pensador da imagem. Dedicou-se a uma pesquisa minuciosa, profunda e abrangente do que é a sensação visual inerente as artes plásticas para buscar vivenciar e expressar o mistério da vida no universo. O quadro mostra um gigantesco rochedo pairando na paisagem, com um castelinho no topo. Acima de tudo, o autor buscou romper com o domínio do objeto sobre o sujeito junto com qualquer tentativa de explicar qualquer coisa. A revelação do mistério se faz por uma linguagem que associa imagens que produz um insight ao observador. Para Magritte, procurar um significado racional na pintura é fugir da vivência da sua revelação, assim como nesta obra.
Rene Magritte foi um desenhista, ilustrador e pintor belga. Era amigo de Andre Breton, Salvador Dali, Marcel Duchamp e outros artistas surrealistas. O artista era religiosamente agnóstico e politicamente de esquerda, mantendo vínculos estreitos com o partido comunista. Suas obras apresentam um surrealismo denominado “mágico” ou “realista”, dada a nitidez com que retrata suas imagens. René cria imagens tão realistas quanto ilusórias, tendo em vista que na composição estas figuras adquirem disposições estranhas, incoerentes e completamente inesperadas. Isso cria uma atmosfera surrealista pelo contraste do conjunto imagético.