Nesta obra vemos a retratação da Primeira Missa no Brasil realizada pelo artista inspirada nos escritos de Pero Vaz de Caminha. Esta obra exemplifica todo o projeto civilizatório que povoava o imaginário da elite do Segundo Império do Brasil que após sua independência ainda buscava seu lugar frente ao cenário internacional. Nesta obra vemos ainda a construção de uma identidade dos brasileiros que perdura até hoje onde simbolismos são estabelecidos em torno do “descobrimento” do Brasil (hoje tratado por escritores e estudiosos indígenas e decoloniais como o ano da grande invasão) com a consolidação do homem europeu e sua cultura católica triunfante perante a população indígena local, ou seja, a exaltação da superioridade portuguesa com suas estratégias de conversão e subjugação cultural. Inicialmente vemos todos os personagens harmonicamente com as atenções centralizadas o Frei Henrique de Coimbra que ergue o cálice de vinho em frente a uma grande cruz representando o momento da eucaristia. Em orientação circular vemos dois tipos de personagens, os portugueses, que estão ajoelhados e em postura de adoração centrando suas feições ao altar se ajoelham e mantém uma postura séria diante do altar, por outro lado, vemos os indígenas espalhados em áreas mais distantes que parecem estranhar esse evento aparentando espanto ou mesmo curiosidade.
Nesta obra, após várias preparações com esboços em desenhos das formas da personagem, Meirelles se inspirou no poema Caramuru de Santa Rita de Mourão criado em 1781 sendo esta uma representação de Moema que emerge das águas após a rejeição de Caramuru. A personagem indígena nua jaz morta, com uma clara conotação sexualizada da personagem, como a personagem do poema demonstrando um traço do gosto da pintura do Romantismo brasileiro pela representação de personagens indígenas, em especial mulheres, em narrativas que reforçaram estereótipos construídos para os povos originários brasileiros e que perduram até hoje. O fato destas obras serem uma das táticas para a criação da identidade do povo brasileiro e desta ter sido uma das primeiras grandes pinturas sobre mulheres indígenas que apesar de heroínas e fortes são associadas a uma melancolia e nesta obra em específico torna-se uma figura morta como a influencia e a força dos indígenas na sociedade e política brasileira da época.
Victor Meirelles de Lima nasceu em 18 de agosto de 1832 em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, filho de uma catarinense e um comerciante português. Iniciou os estudos artísticos em sua cidade natal e, em 1847, foi admitido na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), no Rio de Janeiro. Em 1852, Victor Meirelles obteve o Prêmio de Viagem à Europa, promovido pela AIBA, para onde viajou no ano seguinte e permaneceu por cerca de 8 anos estudando na Itália e na França. É dessa época a pintura Primeira Missa no Brasil, primeira obra exposta por um artista brasileiro em Paris. Em 1861 retornou ao Brasil e deu início a uma reconhecida carreira como professor. Recebeu encomendas de obras com temas históricos, como Combate Naval de Riachuelo e Batalha dos Guararapes. Ao longo de sua carreira manteve uma intensa produção de retratos, atendendo a solicitações de diversas instituições e particulares. No final do século XIX fundou a empresa de panoramas Meirelles & Langerock, numa parceria que produziu, entre outros, o Panorama da cidade do Rio de Janeiro. Faleceu em 1903, no Rio de Janeiro. (Fonte: Museu Victor Meirelles disponível em: https://museuvictormeirelles.museus.gov.br/exposicoes/longa-duracao/arquivo/victor-meirelles-pinturas/)